Café da Copa X Crise

A cotação do café permanece em baixa e desanima os produtores do grão. Entre novembro de 2011 e este mês, a saca de 60 quilos passou de R$ 501 para R$ 240, em média. A saída para enfrentar a crise está em estratégias que envolvem até a Copa do Mundo de 2014. Os 300 associados da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (Coopfam), no Sul do estado, foram escolhidos para fornecer o café do Mundial de futebol. Com isso, seus ganhos poderão ser multiplicados por 10 no próximo ano. Outras estratégias, como leilões diretos e aposta nos grãos especiais, estão entre as alternativas encontradas para amenizar as perdas da atividade.

Crise é gol contra a cafeicultura

Acostumados aos alto e baixos do mercado produtores de café que em 2011 venderam o produto a R$ 500 vão levar algum tempo para recuperar as perdas acumuladas nos últimos dois anos, sendo que o cenário para o grão é pessimista. A queda de preços que começou em 2012 acirrou no mundo e em Minas Gerais, maior produtor do país de café do país: neste mês a saca está sendo comercializada a R$ 240 em média. Para se ter ideia, a queda é de 31% em relação ao ano passado. Frente a novembro de 2011, o preço médio da saca despencou para menos da metade.

Os preços baixos não cobrem os custos de produção, estimados no estado em R$ 380, em média. Breno Mesquita, presidente das comissões de café da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e da FAEMG, diz que o setor aguardava a prorrogação das dívidas. “Nesse período iremos fazer um diagnóstico do setor e propor soluções ao governo federal”, adianta.

Este ano, a estimativa da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) é que o país tenha uma safra de 47,5 milhões de sacas. Minas Gerais deve produzir 55% do percentual nacional, com 26,1 milhões.

Enquanto a maioria dos cafeicultores sente o sabor amargo da crise, Miguel da Silva é um dos produtores que está um pouco mais tranquilo. Ele mandou 50 sacas para ter os sabores avaliados por dois degustadores da Coopfam (Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região). Lá o café passou por máquinas capazes de processar até 300 quilos por dia. E o produto será vendido na Copa do Mundo.

Miguel e a mulher, Marina de Souza da Silva, de 40 anos, com a ajuda das filhas, fazem questão de trabalhar com o café orgânico há pelo menos 12 anos. “Gosto mais. Em questão de dinheiro não foi muito melhor, mas produto químico só traz prejuízo para o mundo. E é bom que a procura está crescendo”, afirma Miguel. As 50 sacas de café deste ano foram colhidas de junho a setembro. Portanto, o café da Copa, que terá início em junho de 2014, já está pronto.

Retração ultrapassa as fronteiras

Termômetro da queda de preços, a balança comercial do país mostra que de janeiro a outubro o país exportou US$ 4,4 bilhões em café, retração de 15,6% em relação a igual período do ano passado. Já os embarques, no caminho inverso, cresceram 15%, somando 24,3 milhões de sacas. Em Minas, responsável por 55% da safra nacional, as exportações de US$ 2 bilhões de janeiro a outubro tiveram retração de 16,6%. Já o volume embarcado ao mercado externo cresceu 19,4%. Mas qual seria a solução para equilibrar a oferta e a demanda, os estoques mundiais, a fim de que o preço remunere o cafeicultor? O Brasil, maior produtor mundial do grão, ainda não encontrou a resposta.

Seguindo a antiga lei da oferta e da demanda, ao longo das décadas o mercado tem sido regulado pelo volume da produção. Bruno Sousa, produtor de café em Campos Altos e um dos fundadores da Academia do Café, tenta equilibrar os tempos ruins com a produção de cafés especiais. Sua safra é dividida em 40% de grão especiais e outros 60% do café arábica tradicional. “Em tempo de preços ruins, o café especial compensa a baixa do mercado. Já em tempos de preços bons, a saca especial não cresce tanto em relação à comum”, explica.

Estratégias à parte, a safra ruim de preços estimula medidas drásticas. Segundo a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), não há um diagnóstico do setor, mas o segmento começa a enxugar com a saída do mercado de produtores em todas as grandes regiões. Segundo a Cooxupé (Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé), na semana passada, um único produtor de São Paulo decidiu destruir 1 milhão de pés de café.

Com ou sem crise de preços no setor, em solo nacional o consumo da bebida segue firme. O Brasil, além de produzir um terço do café consumido ao redor do globo, é o segundo maior consumidor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo a Abic (Associação Brasileira da Indústria Produtora do Café), o consumo no país aumenta perto de 2% ao ano, sendo a melhoria da qualidade o motor do crescimento.

Nas xícaras do Mundial

Os produtores de café estão sendo obrigados a fazer dribles de mestre para enfrentar a crise de preços baixos que vem atingindo a atividade. O preço médio da saca na cotação de novembro passou de R$ 501 em 2011 para R$ 240 neste mês, menos da metade. Mas há alternativas de melhor rentabilidade para aqueles que se organizam e aproveitam as oportunidades.

Miguel Lopes da Silva, de 59 anos, produz café orgânico em Poço Fundo, no Sul do estado. O município fica a 269 quilômetros de São Paulo, que é a capital mais próxima definida como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Ele não vai estar nos estádios nos dias de jogo, mas se fará presente. Com as 50 sacas do produto que colheu na safra deste ano, Miguel é um dos 300 filiados da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (Coopfam) aptos a fornecerem o café da Copa nas 12 cidades-sede.

A Coopfam, presente em 15 municípios do Sul do estado, foi selecionada no projeto Talentos do Brasil Rural para atuar na Copa de 2014. Dos 300 cooperados, 75 produzem café orgânico, uma bebida mais encorpada, saborosa e sem agrotóxicos. A diferença está no sistema de cultivo e no insumo. A adubação para nutrir a lavoura não usa produtos químicos, o que encarece em cerca de 35% a produção. A cooperativa, que já exporta café in natura para os Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália, mal lançou o café industrializado, que será vendido na Copa, e já espera um crescimento significativo nos negócios a partir do início do campeonato mundial. Assim, pode minimizar as perdas relacionadas à baixa no valor da saca convencional.

Segundo o presidente da Coopfam, Clemilson José Pereira, entre o café orgânico e o normal, hoje são vendidos cerca de 100 quilos mensais, com um ganho de R$ 4 mil. Com a Copa, a expectativa é aumentar a venda total para de 500 a 1 mil quilos mensais. A R$ 40 o quilo, o faturamento pode alcançar até R$ 40 mil por mês. Tudo que sai da Coopfam, que foi selecionada junto com uma produtora da agricultura familiar da Bahia, tem certificado Fair Trade, um carimbo internacional para organizações de pequenos produtores. A produção é de 20 mil sacas por ano, das quais 20%, ou em torno de 4 mil sacas, são do café orgânico.

“O café orgânico dá muito mais mão de obra e gasta-se mais material. Para nutrir um pé de café químico são necessários 300 gramas de insumo. No caso do orgânico, esse volume aumenta para dois quilos”, explicou Clemilson. Segundo o presidente da entidade, o fato de os cooperados produzirem café orgânico, além de atuar com agricultura familiar, foi determinante para a Coopfam ser escalada para a Copa.

Valorização O Café Familiar da Terra, credenciado para a Copa, é vendido em três versões: o convencional, cujo preço varia de R$ 7,50 (pacote de 250g) a R$ 16,50 (expresso de 500g); o orgânico que custa R$ 10 (250g), R$ 18 (500g) ou R$ 22 (500g expresso) e o orgânico feminino. Este último, na embalagem vermelha, é produzido exclusivamente por 25 mulheres e tem um gosto mais adocicado. Um pacote de 250 g custa R$ 10. Os de 500g podem ser comprados por R$ 18 (torrado e moído) ou R$ 22 (torrado em grãos ou expresso). Isso significa que um quilo do café pode ser vendido por até R$ 44, o que soma R$ 2.640 por 60 quilos, que é o volume contido em uma saca, negociada atualmente por cerca de R$ 240. A valorização do produto é multiplicada por 11.

Depois de selecionada, a Coopfam está em fase de negociação com redes hoteleiras, cafeterias e restaurantes nas cidades-sede. A ideia é vender não só o produto servido na hora, mas que os locais tenham disponíveis pacotes para quem quiser levar o café em grão ou moído. “Estamos negociando também estandes nos estádios para o próprio pessoal da Coopfam vender os pacotes”, conta Clemilson.

Escrito por: